mulher

Policial blogueira é destaque em artigo sobre mulheres e segurança pública

Postado em

Por Ivenio Hermes

Se nas polícias sem tradição militar o destaque fora da progressão hierárquica para as minorias é difícil de acontecer, numa polícia militarizada essa situação é potencializada.

Enfrentando todo tipo de dificuldade do cargo que ocupa, uma policial feminina é geralmente discriminada, colocada em posições que sem grandes chances de liderança ou ascensão, e comumente rotulada como fraca. Muitas vezes elas chegam a se masculinizar fisicamente para obter respeito numa área de atuação que ainda é dominada pelo sexo masculino.

Contra todas essas dificuldades, a mulher vem mostrando sua persistência e dignificando seu trabalho aos poucos mudando o contexto de segurança pública.

O tema “Mulheres e Segurança Pública” tem se mantido em evidência e foi destaque no 6º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Com esse artigo, essa série iniciada em “As Verdadeiras Guardiãs Mundiais” e “Maria Alice Nascimento”, prossegue com uma abordagem da vida pública da jornalista Glaucia Paiva Virginio, Policial Militar, licenciada em História e estudante de Direito, ocupando a função de jornalista da Assessoria de Comunicação da Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte.

Um pedido de família

Com vários editais de concursos sendo abertos em 2004, a historiadora Glaucia Paiva se viu diante do dilema de escolher qual seria o que mais se adequaria às suas necessidades. E ela pensava simplesmente em suas necessidades porque não se considerava vocacionada para nenhuma atividade que divergisse de sua formação profissional.

Esse sentimento a levou a prestar diversos concursos, mas o da Polícia Militar, ela fez a pedido de seu irmão, que é também policial militar, endossado pela mãe. E foi aprovada! Tanto na PM quanto em vários outros, inclusive o da Caixa Econômica Federal, mas foi a PM que primeiro a convocou.

Sobre sua vocação, a própria Soldado Glaucia declara: “Não digo que na época fiz por vocação, mas hoje não me vejo fazendo outra coisa senão servindo à segurança pública”.

O Curso de Formação Policial deu a ela a paixão pelo serviço policial, de tal forma que, com apenas três meses de ingresso na corporação, ela foi convocada pela Caixa Econômica Federal, mas não quis mais sair da PM.

Era a paixão pela polícia determinando a vida daquela jovem.

Dificuldades Femininas

Empregar mulheres em missões policiais no Brasil surgiu na década de 50. E foi uma mulher, Hilda Macedo, assistente da cadeira de Criminologia da Escola de Polícia, que apresentou no 1º Congresso Brasileiro de Medicina Legal e Criminologia, em 1953, sua tese da necessidade de criação de uma polícia com mulheres.

Hilda defendia que as mulheres eram tão competentes quanto os homens para realizar o trabalho de policial. E foi ela quem se tornou a primeira Policial Feminina do país.

Soldado Glaucia e mais 70 outras mulheres, ingressaram na PM/RN naquele ano de 2004. Daquele ano para os dias atuais, o efetivo feminino foi ampliado para pouco mais de 200 policiais, em um universo de 10 mil policiais militares masculinos no Estado Potiguar.

A expressão “minoria” é adequada até demais para se referir ao universo feminino da Polícia Militar no Brasil, e no Rio Grande do Norte, traduzindo em valores relativos, não poderia ser de outra forma.

Há pouco mais de 2% de policiais femininas para todo o Estado. Deste número, é importante ressaltar que 85% está lotado em Natal, onde, apenas de 9% a 10% do trabalha no policiamento ostensivamente.

Os oito anos de carreira, no entanto, apresentaram muita coisa para os olhos fortes, embora sensíveis, da policial. Fatos que fizeram não somente ela, como também outras colegas a perderem o estímulo em continuar a prosseguir na carreira.

As coisas comuns a todas as corporações, quando direcionadas a minorias discriminadas, adquirem proporções inconcebíveis. No âmbito da capacidade humana, tanto homens como mulheres são perfeitamente capazes de trabalharem juntos, mas infelizmente, o homem no serviço policial, via de regra, se vê enciumado ao notar o destaque de uma mulher.

Assim, a falta de reconhecimento pelos trabalhos feitos além daquilo que é solicitado, a carga horária de trabalho extenuante e excessiva imposta, além da manutenção e aplicação de legislações arcaicas, demovem muitos de continuar no serviço policial.

Superando Obstáculos

Mesmo com toda essa desmotivação, a Sd Glaucia mantém uma satisfação íntima em atender uma ocorrência, em ajudar uma pessoa a recuperar um bem, em deter um criminoso. Um exemplo que ela dá com sua atuação é o comentário: “Um simples agradecimento de uma pessoa satisfeita me faz continuar na polícia”.

Segundo ela, a participação da mulher na Polícia Militar, ainda possui muitos entraves. Em cada unidade pela qual passou, sempre notou que não havia estrutura para atender as policiais femininas, ou seja, em muitas Unidades não ha nem um alojamento para trocar de roupa ou até mesmo banheiro feminino.

O militarismo é cruel com seu sistema de subordinação. Ele trava progressos e mantém no poder policiais com visões estereotipadas fundadas lá no passado preconceituoso. Por isso, as mulheres na Polícia Militar do RN só possuem um espaço digno, a Companhia de Polícia Feminina. Mas em um universo masculino e militarizado, onde a minoria feminina só está inserida há apenas 25 anos, sempre haverá resistência em receber mulheres, embora elas sejam persistentes!

Glaucia não podia ficar inerte e dentro de sua esfera de atuação ela iniciou uma atividade de destaque, a criação de um blog em 2010, o Soldado Glaucia, cuja premissa seria expor pensamentos e conscientizar policiais quanto aos seus direitos.

Na época de sua criação, o blog enfrentou a preocupação do esposo dela que acreditava poder trazer problemas para ela. E novamente, a guerreira potiguar continuou em sua empreitada, pois acreditava que daquela forma ela poderia contribuir mais para a Segurança Pública. Ela, inclusive tem um jargão próprio sobre essa sua atividade: ”Quem melhor para falar da PM, se não o próprio PM”.

Com uma visita diária de pouco mais de 2 mil acessos, a Sd. Glaucia Paiva conquistou uma vitória num campo de batalha que ninguém imaginava que ela fosse lutar. Essa vitória a levou para o Portal BO, uma página da internet dedicada exclusivamente a divulgação de notícias policias, onde mantém a coluna “Por Dentro da PM”.

Capacidade de Adaptação

O serviço policial não é fácil. Não adianta se deslumbrar por salários e status (aquelas polícias que ainda têm), pois é como se perder na escuridão. O candidato ao cargo policial precisa ter em mente algumas verdades muito enraizadas no solo fértil da sociedade brasileira.

Glaucia Paiva conquistou em seus atuais oito anos, alguns poucos elogios pela atividade policial que desenvolveu enquanto esteve lotada na Companhia de Polícia Feminina (CPFEM), onde atuava no policiamento ostensivo nas Zonas Sul, Leste e Norte de Natal. Contudo, antes disso ela trabalhou em Mossoró, no 2º BPM e no Pelotão Ambiental de Mossoró.

Mas foi sua inteligência e esforço próprio que a levou para a força da internet através de seu blog, do Portal BO e do Twitter. No portal BO ela fala com mais amplitude e de maneira mais crítica e voltada mais para a sociedade, sobre o que acontece na PM e em seus bastidores, direcionando seu texto para o público não policial também.

Glaucia se adaptou às condições de trabalho oferecidas e buscou oportunidades. Hoje, ela trabalha na Assessoria de Comunicação da Polícia Militar, na manutenção do site da Polícia Militar. Outra vez, uma mulher mostra a capacidade que elas possuem de se adaptarem ao árido ambiente de trabalho que o universo masculino cria para elas.

Algo Divino

Segundo Glaucia, apesar das dificuldades enfrentadas pelos policiais, tanto masculinos quanto femininos, ela mantém seu conselho de que as pessoas ingressem na PM. Ela destacou em todos os mementos durante a entrevista para esse artigo, que a motivação nunca deve ser o salário e sim a vocação.

Ela observa que há uma migração para os concursos da segurança pública, onde muitos procuram a remuneração e a estabilidade. Sem deixar de considerar esses fatores como importantes, ela afirma que:

“Se não tivermos um policial realmente dedicado e comprometido, todos perdem, a Polícia Militar, que receberá intensas críticas negativas da sociedade sobre os serviços prestados, e a Sociedade, que deixará de ter garantido seu direito constitucional à segurança.”

A Sd. Glaucia Paiva, como todo policial que também possuem uma boa desenvoltura para o jornalismo, não se furta a emitir sua opinião e numa de suas falas ela argumenta que: “No dia em que um policial perder a capacidade de se indignar com a prática de um crime, ele deve sair da PM. Eu não perdi essa capacidade”.

É nesse rubor de força de vontade disfarçado na pele morena da policial perspicaz, mas também esposa dedicada, boa filha e irmã, que ela encerra suas declarações para todas as mulheres que desejam entrar na carreira policial

“Proteger aos outros, seus bens e fazê-los sentirem-se seguros, é nosso trabalho mesmo diante de tantas dificuldades, da Instituição no geral, ou seja, falta de efetivo, equipamento escasso etc. Vejo isso em nossa missão como algo divino.”

Mulher e Segurança Pública

Mulher e Segurança Pública não são assuntos divergentes, pelo contrário, cada dia se provam mais intimamente relacionados.

A mulher tem feito mudanças gerais nos ambientes no qual é inserida. Ela carrega consigo a sensibilidade para enxergar soluções ou antecipar problemas que a maioria masculina é incapaz. Além disso, sua presença nas atuações policiais costuma inibir condutas escandalosas ou até corruptoras e corruptíveis.

É nessa capacidade moral aliada a inteligência emocional única que fornece a ela as condições concretas de inovar na área da Segurança Pública.

Aos 29 anos de idade, a Sd. Glaucia declarou-se lisonjeada em ser convidada para ter seu destaque descrito nesse artigo. Para ela, manifestar-se sobre o universo feminino na PMRN é uma responsabilidade, mas em nenhum momento ela fugiu desse desafio de falar das realidades e dos anseios da Mulher e Segurança Pública sob o ponto de vista de uma policial militar.

A carreira de Glaucia ainda está apenas no início e muito essa profissional ainda poderá contribuir para a segurança pública potiguar, contribuindo inclusive com seu exemplo.

Anúncios

Mulheres invadem carreiras consideradas masculinas

Postado em

Por O Globo

Nem é preciso ser muito atento para notar que as mulheres estão cada vez mais bem colocadas no mercado de trabalho da iniciativa privada. Mas há outro terreno, vizinho, que elas estão ocupando com tanta rapidez quanto: o das carreiras públicas. Como se não bastasse, estão mais interessadas — estudando e passando — em áreas consideradas tradicionalmente masculinas, como a fiscal, a de segurança pública, diplomacia e o setor jurídico.

Na esfera da segurança pública — as polícias civil, militar, federal e também a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap), a presença feminina está crescendo de forma exponencial. Prova disso são os números da seleção para papiloscopista da Polícia Federal (PF), cujas provas estão sendo realizadas neste domingo: há 6.279 mulheres inscritas para apenas cinco mil homens. Trocando em miúdos, elas representam 55% dos candidatos a uma vaga na corporação.

Na segurança pública, o que vale é a vocação

É por vocação que as candidatas que querem a área de segurança pública prestam concurso, diz o professor Paulo Estrella, diretor da Academia do Concurso. Por esse motivo, afirma, só costumam fazer provas para instituições correlatas, seja nas polícias, na Abin ou na Seap, cujo exame de seleção, aliás, está sendo realizado hoje:

— As moças que buscam colocação nesse campo de atuação realmente gostam da ideia de trabalhar com armas e investigação. Só que a relação com o poder e o fato de se tornarem legítimas representantes da lei também mexe com o brio, com o ego delas.

MULHER LIGA PARA O 190 E DENUNCIA PM’s POR EXECUÇÃO EM CEMITÉRIO DE SÃO PAULO NA FRENTE DOS PRÓPRIOS POLICIAIS

Postado em

A Corregedoria da PM de São Paulo informou nesta segunda-feira (4) que um Inquérito Policial Militar (IPM) investiga policiais envolvidos em denúncia de execução, ocorrida em março, em cemitério de Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo. Segundo a Corregedoria, dois envolvidos estão presos. A denúncia foi feita por uma mulher que ligou para o 190 no momento em que presenciava o crime. O áudio foi obtido pela Rádio CBN (ouça ao lado).

Confira o vídeo:

http://video.globo.com/Portal/videos/cda/player/player.swf

Uma moradora da cidade visitava a sepultura do pai e viu quando policiais militares entraram com o carro da polícia no cemitério, retiraram uma pessoa de dentro do veículo e atiraram contra ela.

Com celular na mão, a denunciante ligou para o 190, relatou o ocorrido e indicou o prefixo do carro envolvido. Ela ainda tem um diálogo que ela tem com um dos policiais que a aborda. Segundo a Corregedoria da Polícia Militar, os policiais envolvidos estão presos no Presídio Romão Gomes.

“Foi instaurado inquérito policial para apurar os fatos, no 29º Batalhão da Polícia Militar, na Zona Leste de São Paulo. A Corregedoria auxiliou apenas na elucidação dos fatos momentaneamente, o que culminou com a prisão dos acusados, presos em flagrante e encaminhados ao presídio militar Romão Gomes”, disse o capitão Mauro Rocha, da Corregedoria da PM.

FONTE: G1

LEI QUE ESTABELECE APOSENTADORIA PARA AS POLICIAIS FEMININAS APÓS 25 ANOS DE SERVIÇO ESTÁ NA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA

Postado em Atualizado em

Em reunião com o Tenente Coronel Mendonça na tarde da última sexta-feira, 25, o mesmo comentou que a Deputada Estadual Márcia Maia solicitou a minuta da Lei de Aposentadoria Especial para as Policiais Femininas no dia anterior, quinta-feira (24).

O anteprojeto de Lei Complementar que trata sobre a aposentadoria especial para as policiais femininas no Rio Grande do Norte altera dispositivos das Leis Estaduais nº 4.630/76 (Estatuto da PMRN), e a Lei nº 3.775/69.

A Lei de Aposentadoria Especial para as Policiais Femininas, se aprovada, estabelecerá a transferência dessas policiais para a reserva remunerada ao contar, no mínimo, 25 anos de serviço, com as cotas integrais do soldo.

Exemplo em outros Estados

A Lei de Aposentadoria Especial para as Policiais Femininas não será fato inédito na História das Polícias Militares do Brasil.

No Estado de Rondônia, por exemplo, o artigo 93 do Estatuto dos Policiais Militares da PMRO prevê a transferência para a reserva remunerada aos policiais militares que contar, no mínimo, 30 anos de serviço, se homem, e 25 anos, se mulher, com proventos integrais. Pelo Estatuto da PMRO ainda, o policial militar poderá solicitar a transferência para a reserva remunerada com proventos proporcionais ao tempo de serviço após 25 anos de serviço, se homem, e 20 anos, e mulher.

Para ver a minuta da Lei de Aposentadoria Especial para as Policiais Femininas, CLIQUE AQUI

Matéria criada pela Sd Glaucia

POLICIAIS FEMININAS DO RN IRÃO COMEMORAR DIA INTERNACIONAL DA MULHER COM CAFÉ DA MANHÃ NO QCG

Postado em Atualizado em

Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, o Comandante Geral, Coronel Francisco Canindé de Araújo, através da Assessoria de Comunicação Social e do Comando da Companhia de Polícia Feminina (CPFem), promoverá na próxima sexta-feira, 18, uma confraternização com todas as policiais femininas do Estado.

A confraternização será realizada por meio de um café da manhã, às 8 horas do dia 18 de março (sexta-feira) no Salão Nobre do Quartel do Comando Geral (QCG).

Todas as policiais femininas estão convidadas a participar dessa confraternização!

Matéria criada pela Sd Glaucia, com informações da PMRN

A MULHER NA POLÍCIA MILITAR

Postado em Atualizado em

Nesse Dia Internacional da Mulher nada mais justo homenagear as duzentas policiais militares femininas do RN que fazem diuturnamente a segurança da sociedade.
Transcrevo abaixo um texto da Major Tereza, uma das pioneiras a ingressar na PMRN.

A MULHER NA POLÍCIA MILITAR

A Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte abraçou na instituição o chamado “sexo frágil” – ou “segundo sexo”, como diria Simone de Beauvoir em seu livro “Segundo Sexo” – a partir do final da década de 80, quando as primeiras mulheres foram admitidas na instituição. A Companhia de Polícia Feminina, CPFEM, tornou-se a partir de então um símbolo, um estandarte do rompimento com a cultura patriarcalista da época, que destinava as mulheres funções tidas como delicadas ou caseiras. Obviamente, como toda ruptura, isto não aconteceu sem traumas ou impactos sociais ou, como preferia dizer Beauvoir, “todas as vitórias ocultam uma abdicação”.

O livro de Beauvoir, lançado em 1949 na França, e em 1960 no Brasil, trata-se de uma reflexão feminista e dogmática, tornando-se notado a partir de 1968 com acontecimentos pontuais de luta contra a opressão masculina. A obra não foi lançada com o objetivo de ser o píncaro do movimento feminista, apesar de ter sido adotado como tal, mas sim uma reflexão teórica acerca da condição feminina frente a sua condição social e a luta por seus direitos.

Muito influenciada pelo filósofo Jean Paul Sartre, seu esposo durante toda sua vida, ela escreveu “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, onde claramente podemos observar a influência existencialista sartriana, que pregava a luta pela liberdade individual. Para quem não conhece Sartre, foi ele que cunhou a célebre frase “o homem está condenado a liberdade”, o que significa que a liberdade pode ser não um presente ou uma conquista, mas sim um castigo.

Pioneiras – Em 1955, a Polícia Militar do Estado de São Paulo notabilizou-se por ser o primeiro Estado da Federação Brasileira a admitir nas suas fileiras mulheres para fazer segurança pública. Na seqüência de uma ruptura de discriminação direcionada ao sexo feminino, outros Estados, por volta de 1970, criaram as primeiras companhias femininas. Contudo, a moral machista mostrava-se irredutível, e apenas nos anos 80 aconteceu a entrada massificadora da mulher na polícia. Não quero levar o leitor a acreditar que o machismo tenha acabado a partir daí, mas sim que o movimento estava diretamente ligado a uma crise da própria instituição: O questionamento do modo de atuação dos policiais, que eram vistos sempre como seres truculentos e pouco inteligentes. Então na desestabilização das características que foram marcas de segurança pública passou a não mais servir de forma eficiente a sociedade que exigia uma mudança. Na busca por características na atividade policial mais adequada a sociedade da época, como, “inteligência, capacidade de resolução de conflitos, inovação, trabalho em equipe”, a mulher se apresentou como a melhor e mais eficiente alternativa para a nova polícia: uma polícia cidadã.

O nosso Estado admitiu as primeiras mulheres no posto de oficial em 1987, vindo a primeira Companhia de Polícia Feminina do RN a ser inaugurada após alguns anos. A sociedade potiguar antes imersa em uma cultura de coletividade, lentamente começou a abrir-se para as mudanças propostas pelo movimento feminista. E não poderia ser diferente com as conquistas constituídas por esse sexo que não se apresenta como frágil, quando o assunto é segurança pública.

O que se pode notar com o passar dos anos é que a inserção da mulher na Polícia Militar termina por criar uma tecnologia de produção social, que constitui mulheres com um novo perfil e prontas para trabalhos antes considerados exclusivos ao público masculino. A mulher no serviço policial ostensivo se mostra muito eficiente com sua paciência somada à técnica policial, embora sobre ela pese séculos de ideologias machistas.

Mesmo o número de mulheres sendo pouco expressivo dentro de uma instituição do porte da Polícia Militar, sejam por razões ideológicas ou culturais – na PMRN elas são apenas 200, ou seja, aproximadamente 2% do efetivo geral de policiais – a presença da mulher na atividade policial é cada vez mais necessário e indispensável.

Voltando a Beauvoir, podemos questionar a divisão do sexo como sendo algo divino ou humano? A biologia é um destino ou as mulheres são o que são por uma moral, ou melhor, foi educada para ser o que é? E a submissão de um sexo a outro, uma condição de imposição moral ou apenas um desejo dos deuses? A que se deve a cultura de um sexo submisso a outro? Nos parece mais do que notável que tanto as perguntas quanto as respostas são provocativas por demais e em se tratando de responder tais questionamentos em uma suposta guerra de sexos, os homens – o outro lado desta batalha moral – esquecem de seu humanismo e negam às mulheres os seus valores ulteriores. Podemos começar a responder a esses primeiros questionamentos mais uma vez citando Simone: “Ser mulher, não é somente exercer seu sexo de uma certa maneira, mas é ser classificada de uma determinada maneira na sociedade”.

Conseguiríamos responder a última pergunta com a assertiva de um pensador grego que muito influenciou o ocidente. Vejam o que Pitágoras escreveu: “Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher”, como um dos principais pensadores da filosofia ocidental e indireto influenciador da moral cristã que norteia os nossos dias, Pitágoras parece ter sido um dos principais pensadores moralistas que condenaram as mulheres a tal estado de submissão aos homens.

Para Beauvoir, a mulher não encontra um nível de lucidez enquanto não enxerga a si própria como um ser oprimido pelo homem. Observando as policiais da Polícia Militar – enquanto parte de um macro universo feminino – me pergunto: estarão elas em pleno estado de lucidez para lutar por seus valores ulteriores? Teriam estas policiais a consciência de quão importantes elas são para o tecido social e como representação da vitória através da abdicação?

Refletir sobre a importância do seu papel profissional é também uma forma de exercer sua individualidade e o seu marco coletivo como um ser feminino. A complexidade social e suas relações não se apresentam diferentes para as mulheres, uma vez que no uso da idéia de igualdade se advoga o cumprimento de iguais responsabilidades e funções, mas sem a perda de sua essência.

O feminismo na Polícia Militar não é apenas um discurso intelectual, filosófico ou político. Temos a história de luta do movimento, em sua defesa.


Major PM Maria Tereza Melo dos Santos Boggio

TROPA DE ELITE FEMININA

Postado em Atualizado em

Mulheres mostram força no combate ao crime, um mundo ainda dominado quase totalmente pelos homens

Claúdia, Edmeiry, Denise, Vânia e mais 213 mulheres compõem a tropa de elite da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros no Rio Grande do Norte. Um grupo que não é exatamente elitista por combater os crimes mais perigosos, mas pode receber essa denominação porque representa uma minoria social, como diz o sentido literal da palavra elite. Atualmente a PM tem 10.487 homens e 213 mulheres, o que representa 2% da corporação. O Corpo de Bombeiros é formado por 663 homens e 4 mulheres, exatamente 0,5%. Os percentuais são menores que os dos estados vizinhos. O efetivo feminino da PM paraibana representa 6% do total da corporação, enquanto que no Ceará, 4%. Enquanto que no RN elas não atingem nem 1%, no estado de Pernambuco o efetivo feminino representa 5,6%.

Os comandantes das duas corporações afirmam que não há nenhum regimento interno que limite o ingresso de integrantes do sexo feminino nas tropas ou mesmo que obrigue os concursos a seremexclusivamente masculinos. Eles até prometem abrir vagas em seus quadros para as meninas. Enquanto socialmente ainda se discute o motivo de não termos mais mulheres nas ruas, a psicologia já aponta as várias vantagens mentais e até físicas de trabalhar com o sexo “frágil”.

Aos 40 anos – com carinha de 30 – e avó de um menino de 1 ano, que ganhou de presente de um dos seu três filhos, a soldado Claúdia Maria Moreira Cunha de Souza, não pensa em largar a Polícia Militar tão cedo. Ela é uma das três mulheres do Batalhão da Polícia de Choque do estado, que é composto por mais 227 homens. Porém é a única que vai junto com mais três colegas trabalhar nas ruas de Natal, carregando diariamente pelo menos uma metralhadora. As duas colegas de unidade trabalham no administrativo. “Gosto é da rua. Venho trabalhar com alegria e vontade”, disse Claúdia sobre seu trabalho.

Cheia de vaidade, vai para o trabalho com cabelos sempre muito bem arrumados, unha pintada, batom na cor da moda e brincos. Nem parece ser a mesma soldado que já cortou o cabelo igual ao de um homem para ser aceita no Batalhão de Operações Especiais (Bope). É que antes o batalhão operava junto com o BPChoque e tinha essa exigência. “Fiz um curso em 2004 que precisou de novo. Cortei outra vez”, reafirmou. A patrulheira minimiza ter perdido os cabelos, pior foi fraturar os três dedos do pé, engessar no dia e tirar no outro sob ameaça de perder o curso.

Cláudia relata que aqui no estado nunca sofreu preconceitos por ser mulher, embora, quando integrou a Força Nacional – apenas os melhores policiais de todo Brasil fazem esse curso – e precisou treinar com o Bope do Rio de Janeiro, tenha percebido que não era bem aceita. “Só aguentaram a gente lá, porque a Força é uma instituição Federal”, lembrou. Nas ruas parece que a situação é diferente. “Da forma como nós abordamos não dá muito tempo para alguém ter preconceito comigo”, frisou. Na visão da soldado, o olho das ruas enxerga com admiração e aprova a coragem diária de enfrentar as situações mais adversas.

Conquistas ao longo do tempo

A 1º Sargento Vânia Maria Porto, 39 anos, é da primeira turma de soldados com participação de mulheres na PM. Se hoje ainda existe algum preconceito por elas seguirem a carreira policial, na época de Vânia foi ainda pior. O namorado não aceitava e o próprio pai, que era policial, não demonstrava nenhuma vontade que a filha seguisse seus passos. “Antigamente as pessoas não enxergavam bem o policial. Diziam que tinha era policial quem não sabia fazer outra coisa. Mas depois que passei no concurso meu pai me ajudou”, salientou.

O setor administrativo do prédio da Companhia Feminina é atualmente seu local de trabalho. Mas Vânia recorda saudosista do tempo que era a única mulher em meio aos 75 homens da Rádio Patrulha. “No começo eles estranharam. Depois foram se acostumando. No fim, foi ótimo. Passei dois anos lá”, lembra. Para ela muitas mulheres da PM ainda preferem o serviço burocrático ao trabalho ostensivo, o que acaba diminuindo o número delas nas ruas.

A comandante da Companhia Feminina, a capitão EdmeiryNeves Cassiano, 31 anos, confirma a colocação da sargento sobre as mulheres. “Tem muita mulher que está no administrativo por escolha própria. Assim que se formam todas ficam aqui, mas com o tempo vão sendo cedidas”, explicou. A unidade hoje comanda cerca de 71 mulheres, sendo 50 que entram para o serviço da rua e o restante no administrativo e entram para o operacional a cada 15 dias. As demais estão distribuídas nas outras corporações, com exceção da Cavalaria e Rocam, composta estritamente por homens.

Diariamente saem da tropa feminina duas viaturas mistas, onde apenas o motorista é homem. O destino dos carros são os pontos de apoio das avenidas Roberto Freire e Afonso Pena. Também existem mais duas guarnições no presídio feminino com o colaboração de três soldados. É visível a necessidade de mais mulheres, destaca Edmeiry. “È preciso concurso. São muitas ocorrências envolvendo mulheres, que devem ser abordadas por mulheres”, reforça a capitão.

A comandante acredita, baseada nas abordagens que sofre nas ruas, que existe o interesse do sexo feminino em entrar na PM, mas o que falta mesmo é a criação das vagas. A última vez que a instituição abriu espaço para formação de oficiais de ambos os sexos foi em 2005, que também foi o último edital desse tipo publicado. No ano seguinte foi lançado o concurso para soldado sem a inclusão das mulheres. “Em outros estados os concursos abrem para os dois. Não pode haver distinção de sexo”, ressaltou.

Muita força física e psicológica

Conforme explicitou a capitão Edmeiry Neves, não há nenhum processo disciplinar envolvendo uma mulher na PM. “Elas são ótimas de comportamento”, aponta a comandante. A psicóloga do Corpo de Bombeiros, Fernanda Queiroz, que acompanha a corporação desde 2007, afirma que as poucas mulheres que atende são mais fortes psicologicamente e aguentam mais pressão. “Às vezes mais forte até fisicamente. Nós temos um problema grave aqui de sedentarismo com os homens, mas elas são muito preocupadas com o físico”, declarou.

Fernanda enxerga com urgência a necessidade na entrada das soldados na instituição. Como forma de avaliar o comportamento dos Bombeiros na hora de um salvamento, ela já acompanhou alguns resgates. “Principalmente no setor de ambulância. Tem que rasgar roupa, tem gente que não gosta e cobra que isso seja feito por uma mulher. Já teve casos do marido não deixar a esposa receber respiração boca a boca de um bombeiro”, lembra a psicóloga que espera muitas aprovações femininas no próximo concurso.

As quatromulheres bombeiros são muito bem vistas pelo tropa, principalmente, pelo oficiais com formação recente que já percebe a importância delas na unidade. Segundo Fernanda, a sensibilidade feminina pode deixar o serviço ainda mais humanizado. “Faz falta mulher aqui dentro”, completa a especialista.

Apenas quatro mulheres nos Bombeiros

Se a PM é praticamente um Clube do Bolinha, no Corpo de Bombeiros a situação é bem pior quando assunto é mulher na tropa. São cerca de 165 homens para cada mulher. Nunca houve na corporação um concurso para soldado incluindo as meninas. Há processo seletivo apenas para a formação de oficiais e o último resultou na graduação de apenas uma mulher. As demais inscritas provavelmente não conseguiram passar nas provas físicas ou não quiseram viajar para o Pará, onde acontece o curso.

A 1º Tentente Denise Maria Bezerra de Figueiredo, dona da maior patente feminina dentro do Corpo de Bombeiros, não entrou pela instituição. Ela integrou a turma de soldados PM de 2000 dois anos antes dos Bombeiros se emanciparem da Polícia Militar. Após a separação, Denise prestou concurso para o CFO e passou três anos no Pará sendo preparada para torna-se oficial. Foi a única do Rio Grande do Norte.

Hoje ela toma conta do setor de Operações e lamenta o baixo número de mulheres na unidade. “Espero que as próximas turmas sinalizem com um quadro feminino. O universo dos praças ainda é estritamente masculino”, ressalta. Denise não nega que a preparação física é fundamental desde o ingresso até as atividades diárias que a bombeiro precisa atender, mas ressalta que o trabalho é de equipe e não necessita sempre de força.

Antes de ser bombeiro, ela trabalhou no setor financeiro do Natal Shopping e usa o raciocínio lógico que aprendeu nas ações da corporação. “É preciso colocar a peça certa, no lugar certo. Não tem a ver com sexo, mas sim com capacidade. Existem muitos equipamentos técnicos que não precisam de força”, resumiu. Além da Tenente, integra a corporação a 2ª Tenente Leila Costa, que atua nos trabalhos externos, a Aspirante Márcia Martine e a 1º Sargento Maria Giuzonete Paulino Gomes, vinculada a secção contra Incêndios da Infraero.

PM não limita ingresso na Força

O comandante da PM, Coronel Francisco Canindé de Araújo Silva, afirmar ter completo interesse na entrada de mulheres na tropa e espera a inclusão delas no próximo concurso público. Ele confirmou que o último processo seletivo para soldado não abriu vagas para mulheres, mas não soube justificar o motivo. Araújo assumiu o comando da Polícia Militar em abril deste ano e explica que não há nenhum regimento interno que estipule número de mulheres na corporação.

Já o estado do Ceará determina que a Polícia Militar deve ter no máximo 5% de mulheres no seu efetivo e nem esse percentual foi atingido ainda. “A lei estabelece uma quantidade de vagas para mulheres”, disse o comandante Araújo. Segundo o coronel, as meninas que decidirem entrar na PM podem exercer todas as funções administrativas e operacionais. “Estamos precisando principalmente na área operacional”, apontou. Não há PMs do sexo feminino na Cavalaria nem na Rocam ( Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas).

Em unidades de elite como o Bope e o BPChoque, são respectivamente 1 e 3 mulheres, mas apenas uma no serviço de rua, a soldado Cláudia. A Companhia Feminina tem um efetivo total de 70, sendo 50 no trabalho ostensivo e o restante burocrático. Em conversas informais com o comandante do Corpo de Bombeiros, Coronel Carlos Kleber Lopes Barbosa, já tinha informado sobre sua vontade de abrir concurso com participação de mulheres no próximo ano. Porém, como a reportagem não conseguiu localizar o Coronel até o fechamento desta edição, não pode publicar um palavra oficial dele.

História

A primeira turma de PMs mulheres foi formada no RN em 1990 sob o comando da tenente-coronel Angélica Fernandes Azevedo, 42, que veio de Pernambuco após três anos do curso de Formação de Oficiais. Ela é a primeira potiguar a alcançar o posto de tenente-coronel. Apesar dos avanços na participação da mulher em instituições militares potiguares, um estado pequeno do Norte deu exemplo contra o preconceito em relação ao sexo feminino. Em Rondônia, no ano de 2003, a coronel Angelina dos Santos Correia Ramires, 43 anos, assumiu o comando geral da PM e está no cargo até hoje. Ela é a única mulher do Brasil no cargo. Foi alvo de preconceito ao ser nomeada para a função pelo governador Ivo Cassol. No dia da posse, alguns não a cumprimentaram e foi necessária uma intimação do governador para que o fizessem.

FONTE: Diário de Natal