bico

O “bico” dos policiais na visão de um Promotor de Justiça

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Por Sd Glaucia

O caso recente da morte de um policial militar, Cabo Osmar, trouxe à tona a discussão sobre o trabalho extra dos policiais, os chamados “bicos”.

Em um Estado Democrático de Direito toda discussão é válida para solucionar problemas crônicos de uma categoria, principalmente no que tange à segurança pública.

O Promotor de Justiça do Rio Grande do Norte Wendell Bethoven, em um artigo publicado em um jornal local, citou algumas das causas que levam o policial a realizar um trabalho extra-PM. Cito-as abaixo:

  • Confusão entre segurança pública e privada;
  • Baixa remuneração;
  • Jornada de trabalho dos policiais militares.

No entanto, o promotor comete uma gafe ao tratar da jornada de trabalho como um dos fatores provocadores da atividade extra. 

“os prolongados períodos de folga, normalmente alternando 24 horas de serviço ininterrupto por 3 dias de folga, facilitam o ‘bico’ (…) não é de se esperar que um homem sadio, com pleno vigor físico, permaneça três dias em casa sem fazer nada ou, no máximo, se dedicando às atividades domésticas!”

Wendell Bethoven, Promotor de Justiça

A visão do Promotor Wendell Bethoven, contudo, é compartilhada por muitas pessoas alheias à realidade da jornada de trabalho dos policiais militares. Algumas pessoas afirmam que as escalas de serviço da PM são maravilhosas, já que o policial trabalha “apenas” oito ou dez dias a cada mês.

Todavia, esquecem de calcular a verdadeira carga horária a que esses profissionais são submetidos. Enquanto um funcionário civil trabalha 160 horas/mês, um policial militar pode chegar a trabalhar 240 horas/mês. Soma-se a isso, o fato da atividade policial ser uma das mais estressantes profissões da atualidade.

O descanso com certeza é merecido, já que o PM trabalha 50% a mais do que qualquer funcionário civil. E mais: enganam-se quando pensam que o policial, quando de folga, permanecem no ócio em suas residências. Muitos deles se dedicam aos estudos. Mais da metade do efetivo policial militar do Estado, possuem nível superior ou estão se formando em algum curso de graduação.

No mais, lembro que o policial militar também é um cidadão e merecem usufruir de todos os direitos sociais previstos na Constituição Federal, como o lazer, a educação e a saúde.

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O que leva um PM a realizar “bicos” em suas folgas?

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Por Sd Glaucia, via Portal BO

A morte do Cabo da Polícia Militar Francisco Osmar dos Santos, no momento em que realizava um trabalho extra-PM – o chamado “bico”, traz à tona uma reflexão sobre o que leva tantos policiais a realizarem tal atividade em suas folgas.

Os chamados “bicos” já viraram rotina para a maioria dos policiais militares. Não bastasse as exaustivas e perigosas jornadas de trabalho a que são submetidos, levando-os muitas vezes ao extremo nas suas condições físicas e emocionais, que, alguns casos, provocam doenças mais graves, como depressão, alcoolismo, problemas cardiovasculares, transtornos psiquiátricos e, até mesmo, a desestruturação familiar, policiais precisam realizar trabalhos extras, em alguns casos fora da PM, para complementar sua renda familiar.

É evidente que a necessidade de complementar o salário leva o policial a realizar essas atividades extra-PM, já que direitos garantidos aos demais trabalhadores civis, são cerceados dos policiais, como o adicional noturno e o pagamento de horas extras. Muitas das vezes, os policiais têm o dever de permanecer em serviço, sem a devida remuneração, quantas horas sejam necessárias em situação de flagrante delito.

O “bico” serve como uma válvula de escape do PM, que recorre àquela para realizar algum projeto de vida, como a aquisição de uma casa própria ou algum veículo, entre outros, já que as remunerações pagas a esses servidores não sofrem reajustes anuais, como o salário mínimo, ficando rapidamente defasadas à realidade do sistema econômico-financeiro.

Há quem defenda o “Bico Legal”, mas, como bem falou uma conhecida vereadora de Maceió, isso em nada mudaria a situação dos policiais, já que seria apenas a legalização do aumento da exploração de uma força de trabalho já extremamente explorada.

Quantos PM’s ainda terão que morrer em “bicos” para que se perceba uma falha que há anos existe, que já no ano de 1837, apenas três anos após a criação do Corpo Policial da Província do RN, o então Presidente da Província Silva Lisboa, em sua Carta do Presidente da Província, lembrava da importância de uma “gratificação correspondente à grandeza do trabalho e ao peso da responsabilidade” desses bravos guerreiros que compunham o que viria a se tornar alguns anos mais tarde a Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte.

LUTO: Policial militar morre ao realizar “bico”

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Via Tribuna do Norte

Ação policial após tiroteio em Parnamirim

O policial militar Francisco Osmar dos Santos, de 48 anos, morreu após ferimentos durante tiroteio próximo em frente à agência do Banco do Brasil, no centro de Parnamirim. O policial estava fazendo a escolta de um carro de uma empresa que transportava altos valores para serem depositados na agência. Depois de diversos ferimentos, o policial, que estava à paisana, teve morte confirmada às 17h20.

Na companhia de outro policial militar que também estava à paisana, a dupla de PMs foi ao banco em dia de folga supostamente para fazer a escolta do carro da empresa. No entanto, ao observarem a ação dos criminosos, os dois policiais agiram para impedir o assalto. Em menor número, ambos foram atingidos.

Enquanto o primeiro PM, identificado apenas como soldado Carlos, foi atendido e está com situação estável, o segundo não resistiu aos ferimentos. O policial foi alvejado diversas vezes, inclusive na cabeça, e os médicos não conseguiram reverter a situação. O bandido baleado pela polícia também não correr risco de morrer, assim como um funcionário da empresa que também estava no carro, ferido e já medicado.

A polícia militar segue em diligências em busca dos criminosos. Até o momento, há a confirmação de que pelo menos seis bandidos participaram da ação.

GOVERNO FEDERAL TENTA OFICIALIZAR "BICO" DE POLICIAIS NA COPA-14 E OLIMPÍADAS-16

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Para aumentar a segurança na Copa do Mundo de 2014 e nos Jogos Olímpicos de 2016, o governo federal quer permitir que policiais trabalhem durante o horário de folga. De acordo com reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, existe um grupo escalado pelo Ministério da Justiça para trabalhar pela adequação da legislação para autorizar o “bico” policial.

Coordenador da comissão do governo para a segurança da Copa e da Olimpíada, Alexandre Aragon é um dos defensores da contratação de policiais para os eventos esportivos. “A maior parte das corporações policiais concorda que a utilização desses profissionais permite uma integração maior entre os sistemas privado e público, uma vez que eles já conhecem a doutrina”, disse Aragon, que ressaltou que não é uma “liberação irrestrita do segundo emprego” aos policiais.

Para o Mundial, a Fifa exige que a segurança dentro dos estádios seja feita por empresas privadas. Nesse modelo, a Polícia Militar controlaria as vias públicas. Para evitar a legalização do bico policial no país, o governo estuda uma saída jurídica para liberar o trabalho policial na hora de folga, apenas nas “atividades relacionadas ou vinculadas ao evento”, declarou Aragon.

Não existe legislação federal que regule o segundo emprego dos policiais. O bico hoje é proibido pelos estatutos das corporações, que exigem dedicação exclusiva.

Mesmo assim, estima-se que 60% a 80% dos policiais têm outra atividade quando estão fora do trabalho, a maioria na área de segurança privada. As estimativas são de pesquisadores que se debruçaram sobre a rotina policial e de associações que representam a categoria.

O plano de legalizar o bico policial não é unânime. Adelar Anderle, coordenador de Controle de Segurança Privada da Polícia Federal e responsável pelo treinamento dos vigias para a Copa e a Olimpíada, prefere usar seguranças desempregados.

FONTE: Uol, via Direito dos Policiais Militares

POLICIAIS MILITARES GAÚCHOS QUE FAZIAM "BICO" EM BOATE SÃO PRESOS ACUSADOS DE MATAR CLIENTE

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Dois policiais militares foram presos neste domingo acusados de matar um cliente de uma boate em um bairro nobre de Porto Alegre. Diovani de Pontes Bernardo, de 39 anos, e Thiago de Lima Garcia Vieira, de 27, faziam ‘bico’ como seguranças na casa noturna Roseplace, que funciona desde 1988 no Moinhos de Vento. Eles são acusados do assassinato de Wagner Boeira Cardoso , de 26 anos.

Segundo a polícia, na hora de pagar a conta, por volta das 3h da madrugada, Wagner, que estava acompanhado de um amigo, teria se desentendido com os seguranças do local. Quando saíram da boate, os dois clientes teriam sido perseguidos pelos policiais. Eles foram espancados e Wagner morto com um tiro na cabeça, a poucos metros da casa noturna, na esquina das ruas Dr. Timóteo e Tobias da Silva, na capital gaúcha.

Os policiais, que trabalham no 9º Batalhão da Polícia Militar, acabaram presos na tarde deste domingo. Um deles foi capturado, já em fuga, próximo ao Litoral Gaúcho. Eles foram autuados em flagrante e transferidos para a Penitenciária da Brigada Militar.

De acordo com a polícia, a arma utilizada no crime foi apreendida, assim como as imagens das câmeras de segurança do local. Em depoimento, Thiago, apontado como autor do disparo, rebateu a acusação e disse que foi um tiro acidental.

FONTE: O Globo

NOTA DO BLOG: O “bico”, atividade comum entre a maioria dos policiais, é uma atividade ilegal, já que aos policiais é exigida disposição integral ao serviço policial militar. Porém, muitos policiais ainda recorrem a tal artifício para complementar a renda familiar, já que os salários pagos pelos estados são considerados baixos. Ocorre que os policiais sujeitos a tal atividade estão sujeitos a todos os riscos inerentes à atividade policial, com um agravante: estão sem farda. Se por vezes somos desacatados no exercício de nossa profissão, imagine quando somos enfrentados por civis que desconhecem nossa farda. Quando estamos no “bico” somos apenas mais um vigilante, não temos nossas autoridades impostas pelas nossas fardwas, e precisamos ponderar em algumas situações já que muitos que ali frequentam não sabem nossa real profissão.

JORNADA DUPLA E DESUMANA

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Policiais fazem “bico” como seguranças quando deveriam descansar ou se divertir. Saúde e relações pessoais são sacrificadas

Embora o Estatuto da Polícia Militar do RN especifique que os profissionais devam se dedicar integralmente à corporação, quase todo policial conhece um colega de trabalho que atue em outro local nos horários e dias de folga, sobretudo fazendo segurança particular. É o caso de André, um PM que teve o nome trocado para não ser identificado e em 10 anos de vida dedicada à segurança pública, já passou sete deles em longas jornadas de trabalho, divididas entre o trabalho fardado e a vigilância privada.

Atualmente, André trabalha como segurança em um supermercado na Zona Norte de Natal, onde se reveza com mais três soldados, coordenados por um cabo que fez a “ponte” com a empresa. Lá, o policial dedica cerca de 160 horas por mês, que somam-se às 200 horas, aproximadamente, na PM. “Vivo assim para dar uma vida melhor à minha esposa e minha filha”, justificou, afirmando que o salário que recebe do estado é baixo, embora reconheça que tem parte dele comprometido em umempréstimo.

O salário-base do soldado PM potiguar gira em torno de R$ 1,6 mil líquidos, além de um aumento de 5% a cada cinco anos. André recebe R$ 600 pelo “bico”. “Me ajuda porque minha esposa é auxiliar de serviços gerais e recebe um salário mínimo”. O policial poderia, ainda, receber uma bolsa-formação, com a qual, em troca de se aperfeiçoar com cursos de extensão, receberia R$ 400 mensais durante um ano, podendo prorrogar. Mas é impedido de se matricular porque já esteve preso administrativamente.

Burocracia

“O ‘bico’ é uma realidade que envolve a maioria dos soldados”, afirmou o PM. Segundo André, há possibilidade de ganhar mais no serviço oficial fazendo horas extras, mas há também uma grande barreira. “Temos que passar horas, até madrugar, para pegar uma ficha e registrar esse tempo de trabalho a mais. Se funcionasse, eu não faria bico, porque daria tranquilamente para tirar até R$ 500 a mais”. Os salários de André pagam aluguel, escola, um consórcio de uma motocicleta, além de plano de saúde parao filho, de seis anos, “e lazer, é claro”.

Dentre as consequências de tantas horas trabalhadas sob tensão, André diz que já sofre de problemas no joelho esquerdo, aumento no tamanho do coração e revela, ainda, que precisa tomar remédio contra insônia. “Eu nem sou dos piores casos, porque pelo menos procuro médico e tomo alguma coisa. Mas a maioria dos meus colegas não vai atrás de ajuda, acha que é besteira”. O policial chegou a dizer à reportagem que acredita que viverá pouco, mas “leva na flauta”. “O trabalho nas ruas é extremamente estressante. Pode acreditar que a gente começa o serviço pedindo para terminar”, desabafou André. “Em casa, acabei me tornando uma pessoa estúpida, sem paciência”.

Trabalho extra é proibido

A atividade paralela ou “bico” é geralmente relacionada à segurança particular e, por isso, o assunto causa receio nos profissionais. A reportagem procurou outros cinco PMs com dupla jornada, mas nenhum deles quis ser entrevistado, chegando a temer até os grampos telefônicos. O coronel Francisco Araújo, comandante geral da PM no estado, informou que, dependendo do que seja, é possível que os policiais exerçam uma segunda atividade, contanto que não fique caracterizado vínculo empregatício, exceto se o trabalho for como professor ou médico. “O policial não pode atrapalhar sua carga horária nem comprometer o serviço militar. E caso ele trabalhe em outro lugar com a farda, será responsabilizado disciplinarmente, conforme prevê o nosso estatuto, e responderá administrativamente na Corregedoria”, explicou.

Falsa sensação de liberdade

Segundo Camila Martins, psicóloga organizacional e do trabalho, atuar em gera uma falsa liberdade. “O trabalho por 24 horas seguidas é a solicitação máxima da capacidade do empregado, daí não é sem propósito que ele tenha a folga de dois ou três dias, por exemplo”, explicou. Para ela, as pessoas estão adoecendo mais pelo índice de estresse ocupacional visto na sociedade moderna. “No caso dos policiais, o problema torna-se ainda maior, devido à própria natureza do trabalho de segurança, que demanda vigilância e alerta constantes”, explicou Camila.

A psicóloga também explicou que os policiais se deparam constantemente com situações de tomada de decisões e soluções rápidas de problemas sérios. “Ninguém os aciona porque tem um jardim bonito e sim por um conflito”, raciocina. Para ela, trabalhar à noite sem o devido descanso é ainda pior. “Quase ninguém se adapta porque o metabolismo orgânico foi feito para produzir durante o dia e descansar quando escurece, é uma questão química mesmo”, continuou Camila, acrescentando que muitos profissionais acabam fazendo uso de substâncias psico-estimulantes, como cafeína, chás e energéticos.

Outro agravante para os policias, na opinião da especialista, é o fato de cultivarem a imagem do “forte e inabalável” e terem dificuldade de pedir ajuda, ainda mais a um psicólogo. “Daí surgem os mais variados problemas, como depressão, síndrome do pânico e a oscilação entre momentos de muita euforia e de tristeza”, diz.

FONTE: Diário de Natal

NOTA DO BLOG: Muitos policiais recorrem a um segundo emprego para complementar a renda familiar. Porém, o atual Estatuto da Polícia Militar do RN prevê em seu artigo 30 a dedicação integral ao serviço policial militar, e essa dedicação significa muitas vezes abdicação de uma vida. Em vários batalhões é comum os policiais tirarem serviços extras, mesmo sem ser voluntários. Isso se deve ao baixo efetivo policial, principalmente nos interiores, onde muitos comandantes preferem sacrificar o policial a reconhecer junto aos oficiais superiores os problemas inerentes ao policiamento ostensivo. É preciso uma mudança de mentalidade dos comandantes para reconhecer que nós, da linha de frente, somos acima de tudo humanos, cidadãos – já que nossos salários também são pagos com nossos impostos, que necessita usufruir de um tempo para si e para nossa família.

40% DOS VIGIAS IRREGULARES NO DISTRITO FEDERAL SÃO POLICIAIS MILITARES

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De cada 10 casos de segurança ilegal que a Polícia Federal confirmou no ano passado no DF, quatro envolviam policiais militares que faziam vigilância em estabelecimentos comerciais. Atividade, antiga, foi vetada por meio de uma portaria da corporação.

A portaria assinada pelo comandante da Polícia Militar, Ricardo da Fonseca Martins, autorizando os membros da corporação a fazer bicos não ecoou bem na sociedade. A repercussão negativa do caso fez com que o oficial voltasse atrás e editasse a regulamentação um dia após dar o seu veredito. Em uma nova avaliação, ficou estabelecido que não serão permitidas atividades extras no âmbito da vigilância privada, o que já era proibido, mesmo antes de a polêmica discussão vir à tona. Porém, essa ilegalidade parece não inibir alguns donos de estabelecimentos comerciais do Distrito Federal. A pedido do Correio, a Polícia Federal fez um levantamento da quantidade de PMs atuando como vigilantes. Os números mostram que de, cada 10 casos de segurança ilegal que a Delegacia de Controle de Segurança Privada (Delesp) da PF confirmou no ano passado, quatro se referiam a PMs exercendo atividade clandestina em horário de folga.

Os dados de 2008 não estão computados, mas, somente em uma operação em agosto daquele ano, batizada de Varredura, a delegacia fiscalizou mais de 500 estabelecimentos comerciais no DF em apenas um dia. Desses, 99, ou 20%, receberam autos de infração porque havia segurança privada clandestina, incluindo a participação de policiais militares. Este ano, a Delesp já recebeu 34 queixas, mas ainda não é possível saber quantas, de fato, são atribuídas a PMs.

O chefe da unidade, delegado Flávio Maltez Coca, alerta que contratar essa mão de obra para resguardar o patrimônio configura crime de exercício ilegal da profissão e o contratante pode ser penalizado com multa ou até mesmo responder criminalmente pelo ato. “A primeira providência que tomamos ao confirmarmos uma denúncia como essa é cessar o serviço clandestino imediatamente. Nós orientamos o proprietário a regularizar a situação e indicamos todos os passos. Se ele reincidir, pode ser multado ou até mesmo ser coautor de um crime. Os prejuízos são muitos e não vale a pena arriscar”, recomendou Coca.

Já o policial militar que estiver no posto irregularmente será conduzido à delegacia mais próxima e assinará um Termo Circunstanciado (quando o crime é de menor potencial ofensivo). Sua situação será levada ao conhecimento da Corregedoria da PM. “Fazemos um trabalho de campo bastante criterioso antes da abordagem, pois muitas denúncias não se confirmam. Às vezes, pode se tratar de um comerciante querendo prejudicar o concorrente e temos que fazer um serviço de checagem mais cuidadoso”, completa Coca.

Pouca mudança

Para o secretário-geral do Sindicato dos Vigilantes do DF, Moisés Alves da Consolação, a retificação da portaria assinada pelo comandante da PM na primeira semana deste mês não culminará em mudanças práticas. “Há muito tempo que policiais fazem isso (segurança privada) e a PM sempre fez vista grossa. Não vai ser agora que vai mudar a postura. Não vão fiscalizar e muito menos punir. Eu quero que eles me apresentem um policial militar que foi punido por fazer vigilância privada no DF”, desafiou Moisés.

No ano passado, um levantamento feito pela equipe de fiscalização da entidade sindical identificou 295 pontos em que haviam PMs atuando como vigias, mas, segundo Moisés, os números nem de longe refletem a realidade. “Temos uma equipe limitada que, mesmo assim, conseguiu flagrar quase 300 casos, mas sabemos que esse número é insignificante. Estimamos que haja pelo menos uns 700 policiais ocupando a posição de vigilantes formados”, estima.

O mapa mostra que as cidades do DF são as que mais absorvem essa mão de obra clandestina. Samambaia é a região administrativa onde, segundo o sindicato, existem mais policiais militares exercendo a atividade ilegal: 33 no total. Taguatinga aparece logo atrás, com 24, seguida do Gama (21) e de Planaltina (20).

Tolerância será zero

O chefe do Departamento de Comunicação Social da PMDF, coronel Carlos Alberto Teixeira, rebateu as acusações do sindicalista e garantiu que o comando não será tolerante nem corporativista com o policial flagrado extrapolando suas atribuições. De acordo com ele, a punição para esse tipo de conduta pode ir desde uma simples advertência verbal até a demissão do serviço público. “O comando já deixou claro o que pode e o que não pode. Quem não se enquadrar responderá a um processo administrativo e, dependendo da gravidade da situação, poderá ser demitido da corporação”, alertou o oficial.

Não é de hoje que a profissão de vigilância privada é motivo de discussão. Em fevereiro de 2002, diante das inúmeras denúncias de PMs trabalhando como vigias em todo o Brasil, o Ministério da Justiça baixou uma resolução recomendando aos comandantes que não permitam que a tropa realize esse tipo de atividade. A Resolução nº 4, de 20 de fevereiro de 2002, estabelece diretrizes de procedimentos a serem adotados pela Polícia Militar em relação às atribuições legais. No seu artigo 4º, recomenda-se aos estados e ao Distrito Federal que não utilizem o efetivo policial em atividades de segurança patrimonial, em serviços de vigilância e proteção a prédios públicos.

No entendimento do especialista em segurança pública Antônio Testa, da Universidade de Brasília (UnB), o policiamento poderia ser mais presente nas ruas se a escala de serviço dos PMs fosse alterada. Hoje, a escala de plantão permite ao policial ficar até três dias em casa. “Defendo uma alteração na escala de serviço. Lógico que isso deve ser feito baseado em um estudo. É impossível alguém trabalhar com qualidade 24 horas seguidas. Ele (o policial) vai para casa muito desgastado, descansará oito, 10 horas e, no tempo ocioso, vai procurar algo para fazer. Muitos optam por complementar a renda com o serviço extra. Talvez uma escala em que ele trabalhasse 12 horas e folgasse apenas dois dias seria mais viável e daria à população mais sensação de segurança”, analisou Testa.

Complemento para a renda

O coronel da PM Nelson Gonçalves há 23 anos ministra aulas em faculdades. Ele já trabalhou tanto em regime de escala de plantão quanto em expediente e garante que sempre conseguiu administrar bem a dupla jornada. No caso de Nelson, mesmo antes de a portaria ser publicada, não havia nenhuma ilegalidade em trabalhar como militar e docente, pois a corporação já permitia que o PM acumulasse funções de professor e médico, desde que a prioridade fosse a farda.

Para o oficial, as profissões se complementam. “Na atividade de docente, você pode aplicar muito do que é estudado nas ruas. Assim como nas ruas, você capta informações que podem ser relevantes para os alunos. É possível estabelecer uma troca de experiências que te enriquece em todos os sentidos e contribui nas duas funções”, avalia Nelson, que faz questão de destacar que o comando está correto em vetar o bico de vigilante a PMs. “É uma função incompatível com o cargo de policial militar”, frisa.

No entanto, casos como os de Nelson ainda são minoria. A renda extra de grande parte dos militares que trabalham quando não estão fardados vem de serviço complementar em estabelecimentos comerciais e até mesmo em templos religiosos. É o caso do sargento Ronaldo (nome fictício). Há dois anos, ele trabalha como supervisor de segurança de um banco. Graduado, tem consciência de que a atividade é irregular, mas alega que o padrão de vida na capital exige que se tenha outro emprego, mesmo que informal.

“É verdade que o salário da polícia de Brasília é o melhor do país, mas quem tem três filhos, que é o meu caso, tem que fazer outra coisa se quiser colocá-los em uma escola boa, pagar plano de saúde e faculdade para a esposa. São muitos gastos que comprometem boa parte do salário pago pela polícia”, justifica. O policial diz que o bico rende por mês quase R$ 4 mil. Seu salário na Polícia Militar como terceiro-sargento é de R$ 5.227. “O salário da PM é só para pagar as despesas. O conforto à família eu dou com o dinheiro do bico”, encerra.

Balanço

Em 2009, a Delesp recebeu 235 denúncias sobre segurança clandestina no Distrito Federal. Dessas, 112 foram confirmadas após as investigações, sendo que 45 se tratavam de policiais militares.

Durante operação, 20% dos 500 estabelecimentos comerciais vistoriados utilizavam segurança clandestina.

No Distrito Federal, R$ 4 mil é o salário inicial de um soldado da Polícia Militar.

FONTE: Correio Braziliense

NOTA DO BLOG: Os chamados “bicos” são práticas comuns de policiais militares exercerem nas suas folgas. No geral, isso ocorre devido aos baixos salários pagos nos Estados para esses profissionais de segurança pública. Espera-se que, com a aprovação da PEC 300, esses números diminúam, já que o agente público estaria melhor remunerado. A PMDF é uma das políciais brasileiras mais bem pagas atualmente, onde o salário inicial do soldado é de R$ 4.000,00; porém, justificam a prática dos “bicos” pelo custo de vida ser mais elevado no referido território. Juristas brasileiros criticaram a portaria publicada pelo Comando Geral da PMDF, na qual regularizava os chamados “bicos”, por mostrar-se eivada de vícios.