Quando os policiais tiveram sua dignidade manchada

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Por Glaucia Paiva

912de35c8ba5f414c7530abb11c7cc0aQuem diria que uma instituição de 273 anos passaria por situações humilhantes em pleno século XXI? A Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte há muito tempo já vem sendo remetida a segundo plano pelos governantes, refletindo significativamente na sua estrutura.

Já passaram-se anos sem vultosos investimentos na estrutura da corporação que completará 274 anos no mês de junho. O reflexo disso são as péssimas condições físicas das unidades, especialmente as do interior do Estado, as quais muitas das vezes necessitam contar com o “apoio” das prefeituras para que possa ser realizado o policiamento na localidade. Muitos destacamentos são apenas residências que foram cedidas e ocupadas pela Polícia, sem qualquer planejamento arquitetônico para sediar um corpo militar, com suas armas e equipamentos.

Salvo a Capital e algumas grandes cidades do RN, os policiais militares do interior sobrevivem de “parcerias” para alimentação e fornecimento de materiais para dar um mínimo – bem mínimo mesmo, de dignidade aos que juraram defender a sociedade mesmo com o risco da própria vida.

Também é comum de se ver policiais militares que tiram do próprio bolso para investir na estrutura da corporação, o que seria o dever do Estado. Pagam, literalmente, para trabalhar.

Ocorre que, há dois anos os militares do Estado sofrem com os atrasos no pagamento de seus salários, contraprestação esta que cada vez mais parece ficar mais distante de ser paga a cada mês. Já são 36 dias de atraso em relação ao pagamento de novembro e 50 dias da última vez que receberam o último salário (o salário de outubro foi pago apenas no dia 17 de novembro).

Sem décimo terceiro e o pagamento de dezembro, os policiais militares entraram em uma situação insustentável não apenas para si, mas também para suas famílias. Com contas atrasadas, as quais se acumulam cada vez mais, e sem ao menos o básico em suas mesas (alimentação), a população se comoveu com a situação de seus Heróis e se mobiliza para arrecadar alimentos a serem doados para que os policiais e suas famílias não possam, literalmente, morrerem de fome.

“Estão acabando com a nossa Polícia Militar”, disse um Tenente Coronel em um áudio relatando a situação de um policial da reserva que teria ido ao Batalhão pedir uma cesta básica, pois na sua casa já não tinha mais o que comer. Situações estas que começam a se repetir em várias unidades militares do Estado que receberam as doações da sociedade civil. Policiais choram em áudios que rapidamente se espalha nas redes sociais.

Mancharam a dignidade dos policiais militares. Parece-lhes que um pedaço de sua farda foi rasgada. O que antes era orgulho, parece que passou a ser vergonha. Não pelo recebimento de alimentos e as várias campanhas de doações que se espalham pelo Estado, mas pelo ponto em que chegou o descaso dos governantes com uma corporação e seus membros que juraram defender a sociedade e a ordem pública mesmo com o risco da própria vida. De fato, até os Heróis precisam ser salvos.

Com fome e o psicológico abalado, a tropa armada do Estado vem sangrando e o sangue jorrou na última quinta-feira (04) em uma residência de um policial militar da reserva, o qual ceifou a própria vida, pois não conseguiu conviver com a atual situação de penúria por qual vem passando os militares estaduais. Situações extremas e medidas extremas. Quem antes já foi psicólogo em várias situações de ocorrências, hoje precisa desse apoio, pois como bem diz Fagner em sua música Guerreiro Menino, “guerreiros são pessoas. São fortes, são frágeis”.

No final, parece que essa música vem a refletir a atual situação dos nossos Guerreiros, dos nossos Heróis:

“É triste ver este homem, Guerreiro menino, com a barra de seu tempo por sobre seus ombros.

Eu vejo que ele berra, eu vejo que ele sangra a dor que traz no peito, pois ama e ama.

Um homem se humilha se castram seu sonho. Seu sonho é sua vida e a vida é o trabalho.

E sem o seu trabalho, um homem não tem honra. E sem a sua honra, se morre, se mata”.

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