Viúva de PM morto conta drama e ameaças à vida dos agentes da lei no RN

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Por Novo Jornal

esposa_martina_navratilova_-_policial_do_soldado_daniel_pessoa_50Era fim de manhã quando o telefone chamou na residência de Martina. Ela aguardava o marido em casa para levá-la ao trabalho. Ele não ia demorar, foi até o shopping comprar uma mochila para o filho e voltaria antes do almoço. Mas o telefone tocou e veio a notícia: o soldado Daniel Pessoa fora baleado.

Àquela altura, Martina ainda não sabia que seu marido entraria para as estatísticas. Entre 2012 e este mês de março de 2017, de acordo com o Observatório da Violência do RN, 64 agentes da segurança morreram vítima de assassinato no Rio Grande do Norte. Uma média de mais de 10 por ano.

“Pessoa foi baleado”, dizia a gerente de Martina Navratílova, de 32 anos de idade. Em união estável com Daniel Pessoa há quatro anos, ela sabia que o companheiro estava sempre atento, e inicialmente pensou que ele estivesse bem. “Achava que tinha ocorrido um assalto e ele tinha sido atingido no braço, ou algo assim, mas que estava tudo bem”, lembra.

Martina trabalha na mesma joalheria em que ocorria o roubo que o soldado Pessoa tentou impedir, no Partage Norte Shopping, Zona Norte da cidade.

“A minha gerente imediatamente me ligou, na hora mesmo. É tanto que eu escutava muita zoada, muita gente falando, gritando. Aí perguntei a ela o que tinha acontecido. Pensei até que era um problema pessoal, não sabia que ela estava trabalhando de manhã. Ela disse ‘Martina, Pessoa acabou de levar um tiro em frente à loja”.

esposa_martina_navratilova_-_policial_do_soldado_daniel_pessoa_31Ao chegar ao local, ela recorda, foi interceptada por uma companheira de trabalho. “Ela disse que eu não podia vê-lo naquela hora. Foi só aí que eu tive noção da gravidade da situação”, relata.

Martina aguardou por informações do companheiro até que o viu sendo levado em uma maca. “Ele recebeu os primeiros socorros, mas vamos deixar claro: num shopping daquele porte, a gente paga caro, mas não tem um Samu, não tem um atendimento paramédico, não tem nada. A morte do meu marido foi por anemia aguda, ele perdeu muito sangue antes de ser atendido”.

O policial foi levado em uma viatura para o Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel. “Com as pernas para o lado de fora, que ele é muito grande e não cabia”, completa Martina.

O PM Daniel de Oliveira Pessoa, de 31 anos de idade, morreu na tarde de 31 de janeiro, mesmo dia em que foi atingido pelos disparos na joalheria, no setor de politrauma do Pronto-socorro Clóvis Sarinho.

“Mataram um cidadão de bem e deixaram uma família completamente desestruturada. Porque tanto a gente está, quanto a mãe dele, as irmãs. Porque ele era o foco-chave, mesmo, da casa da mãe dele, o exemplo de filho, de pai. A gente fica como?”, lamenta Martina.

Ela conta que também teme pelas novas ocorrências, e sente pela perda dos demais policiais assassinados. Martina Navratílova faz parte de dois grupos de mulheres que perderam entes queridos da polícia por violência.
“A gente fica chocado diante de tanto descaso. É como se fosse normal acontecer isso. Como se o policial tivesse que estar preparado para morrer. E as famílias? Estamos preparados para a perda?”, questiona.

Os áudios que circulam nas redes sociais, em que supostos criminosos ameaçam a vida de agentes da lei e seus familiares causam pânico nos parentes. “Está ficando banal. Parece que toda semana um policial é morto. Eles estão fazendo mesmo o que dizem nos áudios”.

Na ocasião da morte do cabo Edmilson Júnior, assassinado no dia 25 de fevereiro, Martina conta que passou muito mal em casa. “A gente parece que vive tudo de novo. Lembrei dele, que sempre conversava com meu marido. Pensei na mulher dele, grávida, na perda da família”, recorda.

As crises nervosas, inclusive, ainda impedem Martina de retomar o trabalho, até porque foi lá que o soldado Pessoa foi atingido pelos tiros que o mataram. “Segunda-feira passada eu disse ‘vou trabalhar’. Comecei a me vestir, mas quando estava terminando, minha pressão caiu, meus olhos incharam. Eu não tive condições. Liguei para a minha patroa e disse ‘eu não tenho condições”, revela.

Dos colegas trabalho, ela diz que recebe compreensão. “A patroa disse que eu poderia ficar o tempo que precisasse. Disse também que se eu não conseguir voltar para lá, ela também entende”, conta, cogitando a possibilidade de procurar emprego em outro local, dado o trauma.

Por enquanto, o salário comercial que continua recebendo do ofício de vendedora da joalheria é o que tem para arcar com as despesas da casa e dos três filhos: Pérola, de 1 ano e 8 meses, Eduardo de 8 anos e Mateus, de 14.
Além disso, conta com a ajuda de amigos da família e dos companheiros de farda do Sd Pessoa, que têm auxiliado no momento de aperto. A luta agora é para conseguir garantir a pensão para a viúva e a pequena Pérola, que é filha única biológica dos dois.

O NOVO procurou o Comando Geral da Polícia Militar, por meio da assessoria de comunicação, para saber o que a corporação fez a respeito dos policiais assassinados no Rio Grande do Norte. De acordo com o major Eduardo Franco, responsável pela comunicação da PM, foi dado apoio às famílias das vítimas.

“Nós primeiramente lamentamos todos os fatos ocorridos com nossos policiais. Demos todo o apoio necessário às famílias que tiveram as perdas de seus parentes. Ainda estamos de luto pelas mortes”, declarou o porta-voz.
Ademais, o oficial assessor de comunicação informou que a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Sesed), através da Polícia Civil, tem trabalhado com o objetivo de prender os responsáveis pelos crimes.
No que diz respeito ao caso do soldado Pessoa, os quatro homens indicados como responsáveis pelo assassinato foram presos. O último suspeito foi pego na segunda-feira passada pela Delegacia Especializada de Furtos e Roubos (Defur).

“No policiamento ostensivo o que buscamos é aumentar dentro das condições que temos hoje. Estamos tentando melhorar. O que se comprova no aumento no quantitativo de pessoas presas, armas apreendidas. Entendemos que existem bandidos armados, mas vamos continuar a trabalhar. Os policiais são orientados a como se portar na atividade civil deles”, acrescenta o major.

“Ainda não consegui nada. Tudo é muito difícil. Além de difícil, é muito constrangedor. Além de você estar passando por uma dor extrema, aí você ter a humilhação de ir atrás, que não era pra ser necessário a gente ir”, reclama Martina.

A viúva se refere aos direitos à pensão que ela e a filha têm. O Estado dispõe agora 90 dias para regularizar a situação do benefício. “Então até 90 dias, se eu não tivesse como nos manter, ia passar fome, né?”.
O pequeno Eduardo, que assim como Mateus não é filho biológico de Daniel Pessoa, tem sofrido bastante com a morte do padrasto. Segundo Martina, ele chega a pedir para que a mãe ligue para o hospital, para saber notícias do policial. “Ele foi ao velório, viu o caixão ser enterrado, mas não tem o entendimento”, explica Martina.

O garoto está tendo acompanhamento psicológico, contudo o serviço também não está sendo custeado pelo Estado do RN. Martina conseguiu com uma amiga que estuda na UnP que Eduardo recebesse tratamento na Universidade, no departamento de Psicologia. “Graças a Deus não tem faltado gente para nos ajudar”, agradece. Pérola não entende muito bem o que se passa, contudo pergunta bastante pelo pai. “Eu digo que não está. Nós precisamos desse acompanhamento psicológico mesmo. Não sei o que dizer a Eduardo, também não sei como lidar como Pérola nessa situação”.

A família precisou se mudar do imóvel próprio em que morava para um apartamento alugado após a morte de Daniel. “Eu sentia o cheiro dele em casa, passava muito mal. Eduardo ficava angustiado, Pérola conversava sozinha como se estivesse falando com ele”.

Na casa nova, Martina montou um mural com fotos do marido, colocou pertences dele em uma caixa e salvou vídeos caseiros em que Daniel aparecia. “Para ela (Pérola) saber quem ele foi, para que não se esqueça. Ela é muito pequenininha e vai esquecer. Mas estamos fazendo de tudo para manter a memória do pai dela”, diz.

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