Frequentemente vemos discussões sobre a questão do militarismo nas polícias militares, principalmente as relacionadas à divisão hierárquica entre oficiais e praças.

Embora muitos pregam a segregação entre oficiais e praças, venho para abrir os olhos dos policiais e pregar a união da categoria, embora saiba que esse artigo vai me render diversas críticas.

Visão do Oficial

Primeiro, vou tentar abordar o tema sob a ótica de um oficial.

Comumente pensamos que a vida de oficial é fácil, pois teoricamente recebem os melhores salários, cobram dos subordinados serviços, muitas vezes desgastantes e nunca escutam os seus subordinados. Certo?!

Errado.

Quanto maior o grau hierárquico, maior a responsabilidade. De fato, os oficiais recebem melhores salários, mas também não podemos aceitar que um médico receba menos que um técnico de enfermagem. O ingresso ao cargo de oficial é mais difícil do que no cargo de soldado. O seu concurso público exige um pouco mais de conhecimento e sua formação é mais duradoura (três anos). Além disso, os oficiais são responsáveis por confecções de IPM’s, Sindicâncias, PAD’s etc., o que demanda tempo e desgaste emocional, pois muitas vezes o policial acusado já trabalhou ou trabalha com o oficial.

Vamos para a escala de serviço. A maioria trabalha de segunda a sexta, contudo muitos oficiais concorrem na escala de serviço de oficiais de dia, supervisores de dia e de operações etc. e ainda precisam ficar para o expediente no dia seguinte, pois sempre tem alguma “bronca” de algum praça para resolver. Suas responsabilidades também demanda as atitudes de seus subordinados, o que, muitas vezes lhes rendem “mijadas” superiores, o que os fazem cobrar cada vez mais dos praças para que da próxima vez as atitudes destes lhes rendam elogios – pois sabemos que é sempre bom ouvir um.

Sempre costumo dizer que não gosto receber culpa sem ter. No caso dos oficiais isso acontece frequentemente, pois será que é justo ser chamado a atenção por uma atitude errada de outra pessoa?! Claro que não. Ninguém merece pagar pelos pecados dos outros. Mas os oficiais pagam, e isso muitas vezes lhes custa a transferência.

Os oficiais sabem do anseio do praça. Sabe que o salário que o praça recebe é pouco comparado ao serviço desempenhado por eles. Contudo, como toda a Polícia Militar, eles (oficiais) também são regidos por Hierarquia e Disciplina. Quanto menor o posto do oficial, maior a cobrança por melhores serviços. Até o Comandante Geral tem que se render à Hierarquia quando atende o pedido do Governador. Caso contrário, são enviados ao limbo de uma Unidade Militar rejeitada e distante.

Visão do Praça

Agora, vamos à visão do praça. E permita-lhes falar em primeira pessoa.

A vida de praça também não é fácil. Possuímos salários incompatíveis com o serviço desempenhado em prol da sociedade. Verdade que o ingresso na Polícia Militar não é dos mais difíceis, nem o Curso de Formação é um exemplo na formação de profissionais de segurança pública. Mas continuar na Polícia Militar é o nosso maior sacrifício, principalmente quando gostamos de “ser polícia”.

Somos incessantemente cobrados por serviços, muitas vezes desgastantes fisicamente e psicologicamente. Se quanto maior o grau hierárquico, maior a responsabilidade; quanto menor o grau hierárquico, mais desgastante se torna o serviço, quer seja com escalas extras, eventos diversos etc. Somos frequentemente escalados em serviços extras, solenidades militares ou eventos diversos, o que muitas vezes ocorre sem uma remuneração a mais no salário.

Nossa folga varia entre dois ou três dias. Quando não perdemos um dia de folga descansando, literalmente, do serviço, perdemos por um evento qualquer ou por alguma audiência que insistem em acontecer nos dias de folga do policial. Raras são as vezes que essas audiências caem no dia de serviço, para o praça ao menos economizar o combustível ou evitar sair de casa fardado em ônibus, pois muitos não possuem carro. Isso quando essas audiências acontecem, pois muitas são reaprazadas devido à falta de alguma das partes, ou a impossibilidade de algum advogado, e sempre esquecem de avisar ao praça que é obrigado a se apresentar devidamente uniformizado na Vara designada, sob pena de punição. Já vi alguns praças serem punidos por faltarem audiências.

Reclamamos da falta de valorização do praça. A falta de ascensão na carreira militar para os praças é constante. Vários anos sem concursos. Falta de promoção por tempo de serviço. Muitos soldados se aposentam como soldados ou, no máximo, cabos.

De fato, ser praça também é estressante.

Somos todos militares

Apesar dos sofrimentos em ambos os lados, oficiais e praças, devemos lembrar que somos todos militares. De fato, existem oficiais ruins, como existem, soldados, cabos, sargentos ruins. Alguns piores até que certos oficiais. Contudo, não podemos deixar que a atitude de alguns possa generalizar nossa opinião, pois aí cometeremos o mesmo erro do leigo que afirma que todo policial é corrupto. Lembremos que para toda regra há sua exceção.

Esquecemos essa história de praça e oficial. Cada um possui sua importância na Categoria Policial, cada qual com suas atribuições e responsabilidades. Toda a empresa, mesmo as privadas, existe uma hierarquia, apenas não há a continência. E todos, no final, são seres humanos, com diferentes graus de responsabilidade e com metas a atingir.

Somos todos policiais. Somos todos militares em busca de valorização, de reconhecimento. Há quem interessa a nossa segregação?! Apenas as autoridades que tem medo de uma união de uma categoria tão grande e tão forte. Temos a força de um elefante, mas não a utilizamos por nos dividirmos. Como disse Bial em seu tributo aos policiais, somos o braço direito da democracia.

Se juntos somos fortes, unidos somos um!

Matéria criada pela Sd Glaucia